terça-feira, 14 de março de 2017

Reflexões sobre a abrangência do papel do arquiteto

        O artigo "Perspectivas e desafios para o jovem arquiteto no Brasil. Qual o papel da profissão?" do autor João Sette Whitaker resume o que foi discutido durante as aulas de Legislação e Exercício Profissional do curso de Arquitetura e Urbanismo trazendo reflexões acerca da atuação do arquiteto frente às novas demandas da sociedade.
Desde muitos anos, há paradigmas difundidos na sociedade brasileira sobre o papel do arquiteto como sendo um serviço destinado apenas às classes de alta renda. Mas esse pensamento limita as possibilidades de atuação dos profissionais, tornando o mercado restrito e inatingível. 
A falta de conhecimento do poder transformador social desses profissionais, gerou uma arquitetura de extrema verticalização ditada pelo mercado imobiliário, produzindo prédios cercados e murados que renegam a rua e a cidade. O crescimento econômico no Brasil nos últimos anos não significou, necessariamente, uma melhoria do urbanismo, mas sim, por falta de planejamento, significou o aumento de destruição ambiental e dos problemas urbanos.
E, assim, levanta-se a questão: "de quem é a culpa?" A culpa é de todos nós, do governo, da sociedade que considera a cidade como um mercado, das universidades que orientam os estudantes sob uma única perspectiva profissional, das entidades representativas da classe que pouco discutem a democratização da profissão e etc.
O primeiro passo para uma possível mudança é a conscientização do poder transformador que a arquitetura propõe, como afirma o Whitaker "A arquitetura e o urbanismo, quando vistos como uma profissão central na sociedade, que reflete e propõe a organização do território e do espaço construído, tem uma vocação indiscutivelmente transformadora."         
O segundo passo, então, seria entender a situação econômica e social atual do país aproveitando as oportunidades de novas atuações que não seja apenas de segregação e elitização. Exemplos disso é a nova lei de "Assistência Técnica, que garante às famílias com renda de até 3 salários mínimos o direito à assistência técnica pública e gratuita para projeto, construção ou reforma de suas moradias." Os arquitetos deveriam aproveitar esse desafio que representa uma grande oportunidade de ampliação do mercado de trabalho. Outra oportunidade de mudança foi a criação do CAU, órgão voltado exclusivamente para a regulação da prática profissional e para discussão sobre o papel da nossa profissão na construção do país, podendo criar uma nova identidade para a arquitetura brasileira.
Como podemos perceber, as demandas sociais alteram com o passar do tempo, mudando as concepções de formas e conteúdos espaciais dando um novo sentido à profissão. A arquitetura e o urbanismo são formações complementares extremamente amplas. “Um arquiteto que queira fazer frente aos desafios que o Brasil hoje lhe apresenta deve ser um bom projetista, sem dúvida, mas deve entender da história econômica e social da nossa formação nacional, deve transitar pelo campo da legislação urbanística, deve conhecer aspectos básicos de engenharia ambiental, deve saber de economia urbana, e assim por diante. Deve tornar-se um cidadão, um ser político capaz de colocar-se ativamente nas discussões sobre nosso futuro, em especial no que diz respeito ao ambiente construído. ” 

domingo, 29 de janeiro de 2017

Alternativa ao processo arquitetônico


A arquiteta Carina Guedes desenvolve um projeto de assistência técnica às mulheres de baixa renda. Ao propor às moradoras que façam o levantamento de suas próprias residências e, posteriormente, indicar layouts para cada cômodo através de bloquinhos com tamanho pré-estabelecidos, faz com que elas entendam melhor a questão de proporção do espaço e também a importância desse planejamento para uma melhor qualidade de vida dentro de suas moradias.
Eu acompanho um grupo de arquitetura no Facebook em que esse projeto estava em pauta. Algumas pessoas não concordavam com esse processo, alegando que se trata de um exercício ilegal da profissão, incentivando a autoconstrução. Outras apoiavam a causa, por se tratar de pessoas de baixa renda. Mas o que a arquiteta faz é dar assistência técnica para que a autoconstrução ocorra de forma a evitar desastres, auxiliando com o olhar profissional e dando a autonomia para aquelas mulheres para construir suas próprias residências, de forma segura e fazendo-as se sentir capazes e empoderando-as para um tipo de trabalho considerado ser feito somente por homens. Há também um inventivo para a construção por mulheres realizado pela Paloma Cipriano, a qual ensina pelo Youtube com vídeos instrutivos sobre como construir e reformar.
A autoconstrução, infelizmente, é uma realidade no nosso país, principalmente pelas as classes mais baixas que não possuem poder aquisitivo para tal. Isso ocorre, muitas vezes, por não ter a informação da importância dos profissionais para o sucesso da construção. A autoconstrução assistida é uma possibilidade de dar acesso à arquitetura para essas pessoas como forma de cidadania e mostrar o papel do arquiteto, divulgando a profissão para as classes C e D.
Essa pauta nos leva a pensar nos processos de projetar e no papel do arquiteto: não como planejador ou projetista do espaço alheio, mas possivelmente como gerador de instrumentos que facilitam as decisões e ações sobre o espaço por aqueles que o constroem e usufruem daquilo. As pessoas têm que ter o direito à dignidade, a morar com decência. Se a gente pode ajudar como profissional, por que não? 

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Filme: Koolhaas Houselife

O filme Koolhaas Houselife mostra a rotina do dia a dia da Maison a Bordeaux, famosa casa projetada pelo OMA de Rem Koolhaas em 1998, sob a ótica da empregada da casa, Sra. Guadalupe. O projeto, em Bordeaux, na França, foi desenvolvido para uma família cujo pai tem deficiência física. Por esta razão, Koolhaas projeta pensando em facilitar atividades e dar liberdade ao morador, desde uma plataforma elevatória para alcançar a estante de livros, até a abertura das portas através de um ‘joystick’, ou seja, não possuem trancas, nem chaves.

Mas, por outro lado existe a manutenção, ou seja, o que deixa a edificação em estado habitável, higiênica e até mesmo funcional. Se essa plataforma elevatória para de funcionar, por exemplo, o morador com deficiência física não consegue alcançar os demais cômodos da residência. Então devemos pensar, essa casa é funcional pra quem? O filme retrata a visão da Sra.Guadalupe, que é diferente da visão do turista e de quem mora nela, pois para cada um a função da edificação é diferente. Para manter a casa em ordem, Guadalupe se adequa a casa, e a limpa apesar das limitações que aquele lugar impõe. Um dos exemplos é quando mostra a limpeza da escada em caracol e os diversos deslocamentos que ela precisa fazer para subir com suas ferramentas de trabalho. Nos dias chuvosos há infiltração por toda parte, dai surgem baldes, copos e panos dentro da casa.

Então, antes de observarmos em uma edificação suas formas, cores, espaços e significados, devemos também pensar no modo de como ela se insere no cotidiano de quem nela habita ou trabalha.

Louise LemoineIla Bêka. 
Koolhaas Houselife. Itália. 2013

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Importância da visão social na arquitetura


           Algumas das obras do arquiteto Oscar Niemeyer são mais populares, pois, além do sucesso do arquiteto, este utilizava de inspirações plásticas comuns ao entendimento da população como os conhecidos “pratos” do prédio do Congresso Nacional, a “nave” do Museu de Arte Contemporânea de Niterói, e o “olho” do Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba. Mas foi esse senso comum das imagens que os tornaram marcos identificadores para os brasileiros. Todavia, suas produções recebem críticas quanto à visão social da arquitetura, sem haver uma reflexão sobre seu efeito sobre os usuários e até mesmo para a vida em seu entorno.

          Nossa noção sobre os efeitos da arquitetura, muitas vezes, se restringe a uma natureza estética e psicológica, amarradas necessariamente ao aspecto visual da arquitetura. Vilanova Artigas (1999) entende a arquitetura como arte (forma) e finalidade (função). "Essa finalidade é exatamente a necessidade social da arquitetura representar alguma coisa no campo da sociedade" (ARTIGAS, 1999, p.187). A arquitetura afeta o sujeito, afeta sua leitura do ambiente, gera ambientes com impactos menor ou maior.

No site Vitruvius há um artigo interessante de Vinicius de Moraes Netto sobre os efeitos que a arquitetura pode causar. Como forma de exemplificação, o autor cita o caso de Brasília sobre a cidade: “Quarteirões rarefeitos, sem continuidade de fachadas, cujos edifícios apresentam grandes espaçamentos entre si ou recuos laterais (previstos em nossos planos diretores), terminam por reduzir consideravelmente a densidade dos quarteirões (cujos edifícios precisam então verticalizar-se para atingir densidade razoável) reduzem o número de portas voltadas para o espaço público, e enfraquecem a relação fachada-rua que parece bem-vinda na animação do espaço público”.  Ou seja, há muitos impactos que o edifício construído gera, independentemente dos efeitos desejados pelo arquiteto. Mas se não houver essa reflexão, nós arquitetos seríamos desnecessários, pois o papel social do arquiteto surge em função da consciência de certa causalidade entre projeto, edifício e seus efeitos, devidamente entendida e controlada pelo arquiteto.

Por essa razão, os profissionais, ao compreenderem a importância da visão social na arquitetura devem envolver a sociedade e o poder público na preservação dos valores da cidadania, superando as barreiras existentes. Assim, uma arquitetura verdadeiramente social necessita do envolvimento comunitário em cada etapa para que os resultados apresentados sejam positivos, conforme o grau de satisfação dos futuros moradores.

GRINOVER, Marina. RUBINO, Silvana. Lina por escrito. 
1ª edição. São Paulo: Cosac Naify, 2009. 208f.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Afinal, quem é o arquiteto?


KAPP, Silke; BALTAZAR, Ana Paula; MORADO, Denise. Arquitetura como exercício crítico: apontamentos para práticas alternativas. Disponível em: www.field-journal.org/index.php?page=journal-2

Quando tentamos definir o termo arquitetura, logo nos remetemos ao questionamento do papel do arquiteto. Assim como abordado no artigo referenciado e através de análises sobre o assunto, deparamos com alguns problemas em que os profissionais precisam encarar na profissão e com seus clientes. Para tal, é preciso retornar aos fatos históricos e entender que, muitas vezes, o produto gerado pelos arquitetos foi resumido, e, confirmado pelos mesmos, apenas como seus desenhos de autoria e exclusividade. Sendo totalmente desvinculado do seu papel social e de gerador de espaços através da participação dos usuários.

Ao expor o terceiro significado do termo arquitetura, segundo os autores do artigo, surge uma pergunta: “Se qualquer transformação do espaço pelo trabalho humano é considerada arquitetura, o que restaria aos arquitetos fazer?”, através desse pensamento, como forma de defesa, é desvalorizada qualquer criação do espaço que não seja realizada por arquitetos ou com um projeto prévio. Mas é preciso levar em consideração que um dos papéis do arquiteto é, justamente, levar em consideração os anseios e as transformações da sociedade e compatibilizar esses elementos com o conhecimento técnico do profissional. Assim, o que foi pensado e imaginado será formalizado para que se possa concretizar da maneira mais clara e segura.

Como estudante de Arquitetura e Urbanismo sinto-me desafiada a resgatar e repensar o importante papel de planejadora e criadora do espaço urbano diante de questões relacionadas à sociologia, mercado imobiliário, políticas urbanas aliadas à realidade política, econômica, social e ambiental do espaço produzido.